Incêndio em reator nuclear acende alerta: tratamento contra câncer pode ser afetado no Brasil?

Caso no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares levanta dúvidas sobre produção nacional do lutécio-177, usado em terapias oncológicas.

Saúde – Um incêndio registrado na sala de controle do reator nuclear de pesquisa IEA-R1, em São Paulo, colocou em debate os possíveis impactos no tratamento de pacientes com câncer no Brasil. A unidade pertence ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares e é considerada estratégica para o avanço da medicina nuclear no país.

O incidente ocorreu nos dias 24 e 25 de março e, embora não haja registro de danos diretos à população, especialistas avaliam que o episódio pode trazer consequências futuras, especialmente na produção do Lutécio-177 — substância utilizada no tratamento de câncer de próstata e tumores neuroendócrinos.

Impacto imediato é limitado

Segundo o oncologista Denis Jardim, o efeito no curto prazo tende a ser pequeno. Isso porque o uso do lutécio-177 ainda é restrito a casos específicos e, atualmente, grande parte dos tratamentos no Brasil utiliza versões importadas do medicamento.

Além disso, há alternativas terapêuticas disponíveis, como quimioterapia e terapias-alvo, que continuam sendo eficazes para muitos pacientes. “São indicações específicas. Existem outros tratamentos com eficácia semelhante”, explica o especialista.

No caso do câncer de próstata, por exemplo, o medicamento aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária já é comercializado e não depende diretamente da produção nacional.

Preocupação maior é com o futuro

Apesar do impacto imediato ser considerado baixo, o cenário preocupa no médio e longo prazo. O reator do IPEN é o único no país com potencial para produzir o lutécio-177 em escala nacional, o que poderia reduzir custos e ampliar o acesso ao tratamento.

Com a paralisação da unidade por tempo indeterminado — determinada pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear —, projetos de desenvolvimento e autonomia na produção do radioisótopo podem sofrer atrasos.

A interrupção também afeta pesquisas científicas conduzidas no local, fundamentais para o avanço de novas terapias oncológicas no Brasil.

Tratamento segue, mas dependência externa continua

Hoje, pacientes que utilizam terapias com lutécio-177 não devem sofrer interrupções imediatas. No entanto, o episódio reforça a dependência do Brasil de insumos importados na área de medicina nuclear.

Para especialistas, o caso evidencia a importância de investir em infraestrutura, segurança e produção nacional de radiofármacos — um passo essencial para ampliar o acesso a tratamentos inovadores e reduzir custos no sistema de saúde.

Enquanto isso, o reator segue fora de operação, e a retomada das atividades dependerá da comprovação de condições seguras, mantendo em suspenso planos estratégicos para o futuro da oncologia no país.

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