Quatro em cada cinco idosos com demência no Brasil não têm diagnóstico, aponta estudo

Pesquisa identificou taxas maiores entre analfabetos e moradores de regiões pobres; viver sozinho também elevou a chance de permanecer sem reconhecimento clínico

Saúde – Mais de 80% dos brasileiros idosos que apresentam critérios para demência nunca receberam diagnóstico médico da condição, segundo um estudo nacional liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A pesquisa também identificou desigualdades regionais importantes: nas regiões mais pobres do país, a taxa de ausência de diagnóstico chegou a 90%.

Segundo a análise, viver sozinho também aumentou significativamente a chance de permanecer sem diagnóstico. E idosos com mais anos de escolaridade tiveram menor probabilidade de permanecer sem diagnóstico.

Segundo os pesquisadores, o cenário evidencia uma “lacuna substancial” no reconhecimento da demência no sistema de saúde brasileiro.

O subdiagnóstico não é distribuído uniformemente, mas reflete desigualdades estruturais no acesso a oportunidades diagnósticas, letramento em saúde e resposta dos serviços, segundo os autores no estudo.

Estudo encontrou 83% de casos sem diagnóstico

Os pesquisadores identificaram 392 participantes que preenchiam critérios para demência. Desses, 83,1% não relataram diagnóstico médico prévio.

A taxa foi ainda maior entre:

  • pessoas analfabetas: 93,9%;
  • moradores de regiões mais pobres: 90,2%;
  • idosos entre 60 e 69 anos: 87,9%.

Já nas regiões consideradas mais ricas do país, o percentual de ausência de diagnóstico foi de 76%.

Os autores classificaram as regiões Sudeste e Sul como as mais ricas, enquanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste foram agrupados como regiões mais pobres, considerando indicadores econômicos nacionais.

Diagnóstico tardio e desigualdades regionais

De acordo com o estudo, o Brasil enfrenta obstáculos estruturais importantes para reconhecer precocemente casos de demência.

Os pesquisadores destacam que ainda persiste, inclusive entre profissionais de saúde, a percepção de que o declínio cognitivo seria uma consequência “normal” do envelhecimento.

Além disso, os autores citam fatores como:

  • baixa conscientização;
  • estigma em torno da demência;
  • dificuldade de acesso a serviços especializados;
  • falta de treinamento profissional;
  • fragmentação do cuidado.

Segundo a análise, viver sozinho também aumentou significativamente a chance de permanecer sem diagnóstico

Maior escolaridade aumentou chance de diagnóstico

O estudo mostrou que idosos com mais anos de escolaridade tinham menor probabilidade de permanecer sem diagnóstico.

Os autores sugerem que isso pode estar relacionado tanto à chamada “reserva cognitiva” quanto ao letramento em saúde. Ou seja, à capacidade de reconhecer alterações cognitivas e buscar atendimento adequado.

Os pesquisadores também observaram que pessoas com múltiplas doenças crônicas apresentavam maior chance de receber diagnóstico, possivelmente porque mantêm contato mais frequente e contínuo com profissionais de saúde.

Por outro lado, apenas utilizar serviços de saúde não garantiu maior probabilidade de diagnóstico.

O contato com serviços sozinho é insuficiente para assegurar o diagnóstico, segundo os autores.

País deve triplicar número de casos até 2050

O artigo destaca que a demência representa um dos desafios de saúde pública que mais crescem no mundo.

Segundo os pesquisadores, o Brasil tinha cerca de 2,5 milhões de pessoas vivendo com demência em 2025, número que pode triplicar até 2050 com o envelhecimento populacional.

Diante dos resultados, os autores defendem:

  • fortalecimento de estratégias de detecção precoce;
  • capacitação de profissionais de saúde;
  • ampliação do rastreamento na atenção primária;
  • políticas adaptadas às desigualdades regionais.

O estudo conclui que melhorar o reconhecimento da demência no sistema público de saúde brasileiro pode reduzir desigualdades e ampliar o acesso ao cuidado.

Diante dos resultados, os autores defendem:

  • fortalecimento de estratégias de detecção precoce;
  • capacitação de profissionais de saúde;
  • ampliação do rastreamento na atenção primária;
  • políticas adaptadas às desigualdades regionais.

O estudo conclui que melhorar o reconhecimento da demência no sistema público de saúde brasileiro pode reduzir desigualdades e ampliar o acesso ao cuidado.

Fonte: G1

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