As poderosas bactérias encontradas em cavernas profundas que desafiam a medicina: ‘Resistentes a praticamente todos os antibióticos’

Cientistas estudam suas estratégias, em busca de novos tratamentos e produtos farmacêuticos.

Ciência – Nas profundezas da Terra, 489 metros abaixo do deserto de Chihuahua, no sul do Estado americano do Novo México, fica a caverna Lechuguilla.

Ela se estende por 240 km. Não há luz e quase não há alimento. Os seres vivos, para sobreviverem na caverna, precisam enfrentar condições de quase inanição.

“Você pode ingressar por uma das entradas e percorrer 16 horas em uma única direção, até chegar ao final”, segundo a professora de ciências geológicas Hazel Barton, da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos.

“Por isso, você fica muito, muito, muito longe da entrada, isolado. Mais pessoas pisaram na Lua do que em algumas partes desta caverna.”

Mas, apesar da escuridão, existe em Lechuguilla uma assombrosa diversidade de vida microbiana.

Como as bactérias passaram milhões de anos isoladas, elas oferecem uma janela única para o passado. E, mais do que isso, cada uma delas desenvolveu uma estratégia diferente para sobreviver.

Como na floresta tropical, observamos predadores que simplesmente saem correndo, capturam, atacam e matam outros micróbios”, explica Barton.

“Mas também observamos micróbios que colaboram para obter nutrientes e energia de um sistema que, de outra forma, não geraria energia suficiente para sua sobrevivência.”

Esta resistência não é apenas um fenômeno natural extraordinário. Ela também ajuda os pesquisadores a encontrar substâncias capazes de resistir ao avanço da resistência antimicrobiana na medicina moderna.

Mas é preciso retroceder um pouco esta história.

Atualmente, o surgimento de bactérias resistentes aos antibióticos — frequentemente chamadas de “superbactérias” — constitui uma crise sanitária mundial cada vez maior.

Estas bactérias patogênicas causadoras de doenças desenvolveram resistência a diversos tipos de antibióticos, o que dificulta o tratamento das infecções.

Calcula-se ainda que milhões de crianças já morram anualmente devido a infecções resistentes a antibióticos.

A causa da crise da RAM costuma ser atribuída ao mau uso e ao consumo excessivo de antimicrobianos em seres humanos, animais e plantas. Mas esta é apenas uma parte da história.

Em 2006, o professor de Bioquímica e Estudos Biomédicos Gerard Wright, da Universidade McCaster de Ontário, no Canadá, descobriu bactérias que vivem no solo e estão repletas de genes de resistência a antibióticos.

Estes micróbios que moram no lodo apresentaram exatamente os mesmos genes de resistência que encontramos nas bactérias que causam doenças nos seres humanos.

Não se tratava de bactérias patogênicas”, explica Wright. “Elas não causavam doenças. Simplesmente estavam ali, sem gerar problemas.”

Isso sugere que a resistência aos antimicrobianos não é um fenômeno novo e que, de fato, já estava integrada a muitas bactérias.

Esta descoberta foi respaldada pelo fato de que também foram encontradas bactérias resistentes em núcleos de gelo glacial extraídos da Antártida, além dos solos, mares e rochas do continente isolado.

Se eu descobrir amanhã um antibiótico e quiser levá-lo para a clínica, seria uma boa ideia compreender quais são suas limitações e quais são suas vulnerabilidades frente ao que já existe, pois, assim, estaremos mais preparados para o surgimento da resistência, não se, mas quando ela ocorrer.”

Os mecanismos de resistência comuns incluem bombas simples, que expulsam o antibiótico da bactéria. Outros incluem enzimas muito mais complexas, que modificam ou degradam os antibióticos de alguma forma.

A penicilina sozinha, por exemplo, perde frequentemente sua eficácia porque muitas bactérias possuem uma enzima que se une ao antibiótico e o desativa. Mas, se acrescentarmos um composto chamado ácido clavulânico, esta molécula se une à enzima e a inibe.

Por isso, ao acrescentar o ácido clavulânico à penicilina, o mecanismo de resistência é neutralizado e a penicilina volta a ser eficaz.

Espera-se que a identificação de processos similares nas bactérias das cavernas possa oferecer grandes vantagens aos pesquisadores.

“Se descobrirmos qual mecanismo um micro-organismo pode usar para derrotar um antibiótico, poderemos encontrar a forma de combatê-lo antes que ele chegue à clínica”, conclui Hazel Barton.

Fonte: G1

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