Vídeo foi apresentado pela defesa de Juliana Brasil e sustentava a versão de que a prescrição de adrenalina intravenosa teria sido resultado de uma falha no sistema do hospital.
Policial – A Polícia Civil do Amazonas concluiu que a médica Juliana Brasil encomendou e pagou pela adulteração de um vídeo para justificar o erro na prescrição de adrenalina durante o atendimento médico que resultou na morte do menino Benício Xavier, de 6 anos em Manaus.
Benício morreu em 23 de novembro, após receber adrenalina na veia durante atendimento hospitalar. De acordo com a investigação, a via e a dosagem prescritas não eram indicadas para o quadro clínico da criança. Após a aplicação, o menino sofreu múltiplas paradas cardíacas e não resistiu.
O vídeo foi apresentado pela defesa da médica e sustentava a versão de que a prescrição de adrenalina intravenosa teria sido resultado de uma falha no sistema do hospital, mas perícias comprovaram que o conteúdo foi manipulado.
Segundo informações obtidas com exclusividade pela Rede Amazônica, as mensagens extraídas do celular da médica mostram que ela encomendou e pagou pela produção do vídeo.
No dia 26 de novembro, Juliana fez contatos com outros médicos e enfermeiros para montar um vídeo que mostrasse supostas falhas no sistema do Hospital Santa Júlia. A ideia era mostrar que o sistema receitava aplicação de adrenalina na veia, mesmo se o médico indicasse aplicação via oral.
Juliana afirma que precisaria de alguém para fazer o vídeo e a edição, mas que não sabe quem poderia ajudar.
Juliana também conversou com uma amiga, que seria médica. A mulher diz que ofereceu dinheiro para uma enfermeira fazer o vídeo. Juliana fica animada e afirma que vai procurar outras pessoas também.
Em outro áudio, Juliana diz: “Amanhã vai chegar o vídeo pra mim, já alterado”. Para a polícia, a tentativa de fraude processual reforça a suspeita de dolo eventual.
O delegado destacou que quem é inocente não tentaria adulterar nenhum vídeo e que a atitude da médica reforça a suspeita de dolo eventual.
Além da adulteração de provas, as investigações revelaram que Juliana Brasil negociava cosméticos por aplicativo de mensagem enquanto atendia Benício na Sala Vermelha, em estado crítico após receber a medicação
Em nota, a defesa de Juliana Brasil afirmou que o vídeo é íntegro e foi feito por uma pessoa de confiança em outro hospital que utiliza o mesmo sistema usado no Santa Júlia. A defesa também negou o pagamento citado pelo delegado.
A polícia aponta erro na prescrição e na aplicação da adrenalina por via intravenosa. O protocolo médico indicaria outra via e dosagem. A aplicação inadequada está associada à rápida piora do quadro clínico da criança
A médica Juliana Brasil, responsável pela prescrição, e a técnica de enfermagem Raiza Bentes, que aplicou a medicação, são as principais investigadas. As duas foram afastadas das atividades profissionais por decisão judicial e estão proibidas de atuar por 12 meses. Não há prisões decretadas até o momento.
Em depoimento, a médica reconheceu que errou ao prescrever adrenalina por via intravenosa e afirmou que a medicação deveria ter sido administrada por outra via. Ela disse ter se surpreendido por a equipe de enfermagem não questionar a prescrição.
A defesa da médica alega que o erro ocorreu por falha no sistema de prescrição do Hospital Santa Júlia, que teria alterado automaticamente a via do medicamento durante instabilidades no dia do atendimento.
A defesa da médica alega que o erro ocorreu por falha no sistema de prescrição do Hospital Santa Júlia, que teria alterado automaticamente a via do medicamento durante instabilidades no dia do atendimento.
A técnica de enfermagem afirmou que apenas seguiu a prescrição médica ao aplicar a adrenalina, sem diluição, e que informou a mãe da criança sobre o procedimento. Segundo ela, após a aplicação, Benício apresentou palidez, dor no peito e dificuldade para respirar.
A Polícia Civil já ouviu mais de 20 pessoas, incluindo os pais de Benício, as investigadas, médicos, enfermeiros e representantes do hospital.
O inquérito também apura a responsabilidade do Hospital Santa Júlia quanto à estrutura, aos protocolos de segurança e a eventuais falhas no sistema de prescrição.
O fundador da unidade, Édson Sarkis, prestou depoimento e afirmou que o hospital possui protocolos de segurança e dupla checagem. Segundo ele, havia enfermeira responsável pelo protocolo no plantão, mas ela não foi acionada durante o atendimento.
Fonte: G1 Amazonas