Leilão bilionário evita risco de apagão, mas pode elevar conta de luz em até 10%

Contratação recorde de energia térmica garante segurança ao sistema, porém expõe falhas no modelo e deve pesar no bolso do consumidor.

Economia – O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) de 2026 cumpriu sua principal missão: evitar o risco de apagão no Brasil. Com a contratação de mais de 19 gigawatts (GW) de potência, majoritariamente de usinas termelétricas, o governo reforçou a segurança do sistema elétrico em um cenário de crescente dependência de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica.

Mas o alívio no abastecimento vem acompanhado de um alerta: especialistas estimam que o impacto da contratação pode resultar em aumento de até 10% na conta de luz nos próximos anos.

Conta bilionária para o consumidor

Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) indicam que os contratos firmados no leilão devem gerar um custo superior a R$ 500 bilhões ao longo do tempo, com cerca de R$ 39 bilhões por ano apenas em receita fixa.

Entidades como a Frente Nacional de Consumidores de Energia e a Abrace avaliam que o volume contratado foi elevado e tende a pressionar as tarifas. Para o ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Luiz Eduardo Barata, o impacto é inevitável:
“É um volume significativo que vai se refletir diretamente na conta do consumidor”, afirma.

Pressa custou caro

A decisão de realizar o leilão mesmo com críticas ao modelo foi respaldada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que apontou fragilidades na estrutura, mas optou por não suspender o certame diante do risco de desabastecimento.

Na prática, o governo priorizou a segurança energética em detrimento da eficiência econômica. Especialistas avaliam que a pressa reduziu a competitividade e elevou os preços contratados.

Para o ex-diretor da Aneel, Jerson Kelman, o problema começa no desenho do leilão. Segundo ele, a divisão por tipos de fonte — os chamados “cercadinhos” — limitou a concorrência e favoreceu determinados geradores.

Predomínio de térmicas

Dos 19,5 GW contratados, cerca de 17,5 GW são de usinas termelétricas, consideradas mais caras e poluentes. O modelo também permitiu a entrada de térmicas a carvão, o que gerou críticas por ir na contramão da transição energética.

Para analistas, a forte dependência dessas usinas aumenta o custo estrutural do sistema, já que elas têm operação mais cara em comparação a outras fontes.

Efeito colateral: baterias perdem espaço

Outro ponto de preocupação é o impacto sobre tecnologias emergentes. A Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) alerta que a contratação massiva de térmicas pode reduzir o espaço para sistemas de armazenamento por baterias, considerados mais eficientes e com custo operacional até 50% menor.

Segundo o presidente da entidade, Markus Vlasits, há risco de esvaziamento de futuros leilões voltados ao armazenamento, que ainda nem foram realizados.

Governo comemora, mercado questiona

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, celebrou o resultado e classificou o certame como “o maior leilão de térmicas da história”.

Já críticos apontam que o governo agiu tardiamente. O ex-diretor da Aneel Edvaldo Santana comparou a situação a “comprar comida quando já se está com fome”, indicando perda de poder de negociação e preços mais altos.

Segurança garantida, eficiência em debate

No fim, o leilão escancara um dilema histórico do setor elétrico brasileiro: garantir energia ou garantir preços baixos.

O país conseguiu evitar um risco imediato de apagão, mas ao custo de contratos caros e de longo prazo. Agora, o desafio será equilibrar segurança energética com eficiência — sem transferir uma conta ainda mais pesada para o consumidor.

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