Especialista explica que reconhecer a obesidade como condição crônica muda o tratamento, reduz o estigma e amplia o acesso a terapias eficazes.
Saúde – Durante décadas, o excesso de peso foi associado à falta de disciplina ou força de vontade. Expressões como “é só fechar a boca” ainda ecoam no senso comum. No entanto, a ciência é clara: a obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. No Dia Mundial da Obesidade, especialistas reforçam que mudar essa percepção é essencial para transformar o cuidado e combater o preconceito.
De acordo com o endocrinologista Dr. Maurício Yagui Hirata, reconhecer a obesidade como doença muda completamente a forma de abordar o problema. “Quando deixamos de tratar como falha de caráter e passamos a enxergar como condição de saúde, abrimos espaço para diagnóstico adequado, tratamento estruturado e acompanhamento contínuo”, explica.
A própria Organização Mundial da Saúde classifica a obesidade como doença há décadas. Ainda assim, o estigma social persiste — e isso tem impacto direto na saúde física e emocional dos pacientes.
Não é apenas uma questão de escolha
A obesidade resulta da interação de múltiplos fatores: genética, alterações hormonais, metabolismo, ambiente alimentar, sedentarismo, qualidade do sono, estresse e aspectos psicológicos. Algumas pessoas apresentam maior predisposição biológica ao ganho de peso, com mecanismos que favorecem o aumento do apetite e o acúmulo de gordura.
Além disso, o ambiente moderno contribui para o problema. A ampla oferta de alimentos ultraprocessados, a rotina acelerada e o sono insuficiente interferem diretamente nos hormônios que regulam fome e saciedade.
Isso não significa que hábitos saudáveis não sejam importantes, mas reforça que a obesidade não pode ser simplificada ou reduzida a julgamento moral.
Muito além da estética
Os impactos da obesidade vão muito além da balança. O excesso de gordura corporal está associado a maior risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia, apneia do sono, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Estudos apontam que a obesidade é um dos principais fatores de risco para infarto e acidente vascular cerebral (AVC). A inflamação crônica provocada pelo excesso de tecido adiposo também contribui para alterações metabólicas complexas.
A saúde mental é outra dimensão frequentemente afetada. O estigma, a discriminação e as frustrações com tentativas repetidas de emagrecimento podem levar à ansiedade, depressão e isolamento social.
Tratamento é contínuo e individualizado
Reconhecer a obesidade como doença crônica permite um plano terapêutico estruturado e de longo prazo. A base do tratamento continua sendo a mudança no estilo de vida — com reeducação alimentar, atividade física regular e melhora da qualidade do sono —, mas essas estratégias precisam ser individualizadas.
O acompanhamento multiprofissional, com médico, nutricionista, psicólogo e educador físico, aumenta as chances de sucesso. Em determinados casos, medicamentos podem ser indicados para auxiliar no controle do apetite e do metabolismo, sempre com prescrição e monitoramento médico.
Para pacientes com obesidade grave ou comorbidades associadas, a cirurgia bariátrica pode ser considerada dentro de critérios clínicos bem definidos, como ferramenta terapêutica e não como solução estética.
O Dia Mundial da Obesidade reforça um convite à mudança de olhar. Ao substituir culpa por ciência e preconceito por cuidado, o tratamento se torna mais eficaz — e mais humano.