‘Parece que sou um produto criado pra ir atrás de uma herança’: o homem no centro de disputa bilionária das Casas Pernambucanas

Geral – Artur Miceli é um dos entrevistados em série documental do Globoplay que investiga batalha judicial de quase uma década envolvendo o patrimônio de R$ 2 bilhões da empresária Anita Harley. Ela está em coma desde 2016.

Artur Miceli, de 31 anos, está no centro de uma disputa bilionária que envolve a história de Anita Harley, herdeira de um império do varejo brasileiro, as Casas Pernambucanas. A empresa virou alvo de uma disputa judicial sem precedentes. 

Anita, dona de uma fortuna estimada em R$ 2 bilhões, está em coma há quase 10 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) em novembro de 2016.

Atualmente, Anita Harley encontra-se em um leito de UTI, em um estado descrito pela diretora do documentário “O Testamento”, Camila Appel, como um “grande pesadelo”:

A Anita se encontra num estado que é um grande pesadelo para todos nós, que é um estado em que você é considerado vivo. Clinicamente vivo, né. Mas não pode responder nem tomar decisões.”

A batalha, que envolve o controle das Pernambucanas e a vida pessoal da empresária, é o foco da série documental “O Testamento – O Segredo de Anita Harley”, que estreou na segunda-feira (23) no Globoplay

Um dos entrevistados na produção é Artur Miceli, filho biológico de Sônia Soares, conhecida como Suzuki. Um ano após a internação de Anita, ela entrou com uma ação alegando que as duas viviam em união estável havia 36 anos.

A Justiça deu decisão favorável a Sônia, reconhecendo a relação do casal. 

“Eu estou aqui porque eu preciso da minha história e não da história que contam”, afirmou Sônia no documentário. 

A Justiça também decidiu que Artur deve ser considerado filho socioafetivo de Anita Harley e, portanto, seu herdeiro. 

Em entrevista ao documentário, Artur afirma que a disputa o forçou a provar sua própria existência e seus laços familiares: 

“Essencialmente, eu sou um filho”, diz sobre a história dele com Anita. 

“Eu acho que a única forma que eu tenho de tirar essa narrativa da mão dos outros é que eu possa contar a minha história. É muito ruim você ter que provar que você existe. E que eu tive uma família, e que eu fui amado, e que eu tive estrutura e tal, é muito chato. Porque parece que eu só vim, que eu sou um produto criado pra ir atrás de uma herança”, disse.

Relação contestada na Justiça

Suzuki e Anita moravam em uma mansão de 96 cômodos e 37 banheiros na Aclimação, em São Paulo, imóvel doado a Sônia pela empresária e avaliado em R$ 50 milhões. 

  • Pergunta do documentário: “Quanto tempo vocês moraram juntas?”
  • Sônia: “36 anos. Até o AVC.”
  • Pergunta: “Você ama ela?”
  • Sônia: “Muito.”

Essa relação entre é contestada por Cristine Rodrigues, que trabalhou com Anita e também reivindica na Justiça ser a verdadeira companheira da empresária. 

“Ela é minha companheira de vida”, declarou Cristine. 

Sobre a alegação de Sônia, Cristine rebateu: 

“Olha. Não preciso nem enxergar. Ninguém pode estar em dois lugares. Será que não dá pra entender? Não vale a pena.”

Cristine Rodrigues contesta essa visão, afirmando que Anita era apenas generosa e pagava estudos e bens para muitos funcionários, mas nunca tratou Artur como filho. 

“Anita tratava ele bem, como você trata uma criança que mora na sua casa. O fato de você tratar bem uma criança, de você pagar os estudos dessa criança… é normal. Não é só dele que ela pagava. Faculdade, colégio. Pagava convênio de muita gente. Já deu casas pra funcionários, carros. Ela era uma pessoa muito, muito generosa. O fato de tratar bem, gostar do menino, não quer dizer que seja filho. Ela nunca se referiu a ele como filho. Se ele disser isso, ele está mentindo”

Linguagem de ficção para uma história real

Para contar essa trama de “amores escondidos” e “reviravoltas judiciais”, a direção do documentário optou por uma estética diferenciada, reconstruindo os cenários em estúdio. 

“A gente optou pela ideia de reconstruir os cenários todos num estúdio e escancara isso. A gente não finge que aquele cenário é a casa. A gente mostra o estúdio. Tinha essa intenção de transformar aquela narrativa numa narrativa com mais cara de ficção mesmo”, explica Monica Almeida, diretora de gênero da Globo.

Investigação e complexidade

A série documental é resultado de cinco anos de investigação jornalística. A diretora de gênero de documentários, Monica Almeida, explicou que a produção optou por reconstruir cenários em estúdio para dar uma narrativa próxima à ficção a esse drama real.

Para a diretora Camila Appel, a série reflete sobre a vulnerabilidade daqueles que perdem a voz: “É uma série que fala sobre o que pode acontecer com aqueles que não podem falar por si mesmos. Isso gera uma identificação de todo mundo, de pensar: puxa, e se acontecesse comigo?”. 

“Eu até estava em busca de uma verdade. Mas no meio do caminho eu percebi que eu não ia conseguir alcançá-la. E eu acho que abrir mão dessa busca me fez muito bem no processo de investigação e no resultado da série. Porque aí eu foquei em trazer a complexidade dessa história, trazer todas as vozes, que são muitas, e elas realmente brigam entre si. E me desprender da ideia de que pode ter uma única verdade. Talvez todo mundo ali enxergue a sua verdade.”

O desfecho da investigação promete uma revelação surpreendente que pode mudar novamente os rumos da história. Enquanto isso, o futuro das Casas Pernambucanas permanece incerto em meio ao que envolvidos descrevem como uma briga por “dinheiro, poder e influência”.

Fonte: G1

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