ONG Instituto Conhecer Brasil e produtora Go Up Entertainment, ambas de Karina Ferreira da Gama, funcionam no mesmo endereço em São Paulo
Política – A Polícia Civil de São Paulo realiza nesta segunda-feira, 1º, a Operação Wi-Fi Livre SP para investigar suspeitas de fraudes em um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) de São Paulo e a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), responsável pela implantação e manutenção de internet gratuita em comunidades da capital.
O principal alvo da investigação é o Instituto Conhecer Brasil, que é presidido pela empresária Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, baseado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As duas empresas funcionam no mesmo endereço, na capital paulista.
Segundo a Polícia Civil, há indícios de irregularidades tanto na contratação quanto na execução do programa para instalação de internet em comunidades. As investigações apontam suspeitas de pagamentos por serviços não executados, possível superfaturamento e inconsistências na prestação de contas apresentada pela entidade.
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública (SSP), o contrato previa a instalação de 5 mil pontos de acesso à internet, mas apenas 3,2 mil foram implantados até o momento. Os investigadores também apuram a antecipação de repasses milionários sem a entrega dos serviços contratados que era esperada.
Notas fiscais canceladas
A prestação de contas do da ONG também é alvo das investigações. Relatórios analisados pelas autoridades apontam a utilização de notas fiscais posteriormente canceladas e documentos considerados irregulares para justificar despesas relacionadas ao projeto.
Por determinação judicial, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao instituto, a empresas subcontratadas e à própria Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. Não houve prisões nesta segunda-feira no âmbito da operação.
A reportagem tentou contato com Karina Ferreira da Gama para comentar as investigações, mas não conseguiu localizá-la até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
O que diz a prefeitura
Em nota ao Terra, a Prefeitura de São Paulo informou que colabora com as investigações e afirmou que toda a documentação requisitada já havia sido disponibilizada às autoridades. A administração municipal também negou pagamentos por 5 mil pontos de internet e declarou que o aditivo contratual investigado se refere apenas à manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados.
A gestão municipal afirmou ainda que o programa segue funcionando normalmente e que, na manhã desta segunda-feira, apenas 52 dos 3,2 mil pontos contratados estavam temporariamente fora de operação para manutenção. Segundo a prefeitura, o processo foi realizado por chamamento público e acompanhado pelo Tribunal de Contas do Município (TCM).
A administração também rejeitou qualquer relação entre o contrato e a produção do filme sobre Bolsonaro, destacando que a parceria com o instituto foi firmada em 2024, antes do início da produção cinematográfica. Leia a íntegra do posicionamento da prefeitura:
“A Prefeitura de São Paulo informa que colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações. Todo o material requisitado na manhã desta segunda-feira já havia sido disponibilizado às autoridades e são, desde sempre, de acesso público, por meio da prestação de contas do município. A administração ressalta que o programa funciona normalmente na cidade e pode ser acompanhado em tempo real no link https://wifilivrecomunidades.org/sp. Por volta das 9h desta segunda-feira, dos 3,2 mil pontos contratados pela prefeitura, apenas 52 estavam off-line e passavam por manutenção. Não houve pagamento por parte da administração para 5 mil pontos. O aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados nas comunidades periféricas da cidade.
A prefeitura reforça que toda a prestação de contas, com documentos, notas fiscais, contratos e outras informações, está no sistema SEI, que é público. O processo passou também por acompanhamento do Tribunal de Contas do Município (TCM). A Prefeitura repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos, uma vez que o contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade
Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022, de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês.”
Fonte: Terra