Fabricante do Mounjaro critica distribuição de tirzepatida no SUS e alerta para riscos

Lilly afirma que produto oferecido por prefeitura não é o medicamento original aprovado pela Anvisa e pode expor pacientes a insegurança sanitária.

Saúde – A farmacêutica Eli Lilly and Company se posicionou contra o formato adotado pela Prefeitura de Urupês para oferecer gratuitamente tirzepatida a pacientes com obesidade na rede municipal de saúde. Segundo a empresa, o produto distribuído não é o medicamento original Mounjaro, mas uma versão manipulada da substância — o que, na avaliação da companhia, pode colocar a população em risco.

Em nota enviada à imprensa, a farmacêutica destacou que reconhece a gravidade do avanço da obesidade e a pressão enfrentada por gestores públicos. No entanto, afirmou que boas intenções não substituem o cumprimento das normas regulatórias e dos padrões de segurança exigidos para medicamentos aprovados.

Diferença entre o produto original e a versão manipulada

De acordo com a empresa, o Mounjaro é o único medicamento à base de tirzepatida aprovado no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Já o produto distribuído no município, segundo a Lilly, seria uma formulação manipulada produzida em escala industrial — prática que, conforme a legislação brasileira, não pode substituir medicamentos industrializados registrados.

A farmacêutica afirmou que medicamentos manipulados não passam pelos mesmos processos rigorosos de avaliação relacionados à síntese da substância, purificação, esterilidade, controle de impurezas e armazenamento.

Ainda segundo a empresa, foram identificadas, no Brasil e em outros países, versões manipuladas de tirzepatida com problemas como presença de bactérias, níveis elevados de endotoxinas, impurezas relevantes e até divergências na composição química.

“O que está sendo distribuído não é Mounjaro. O produto não foi revisado nem aprovado pela Anvisa e não pode ser considerado seguro, eficaz ou equivalente ao medicamento aprovado”, afirmou a companhia em nota.

Prefeitura defende legalidade do programa

A Prefeitura de Urupês informou que adquiriu o medicamento de uma empresa farmacêutica sediada em Santana de Parnaíba (SP), que, segundo a administração municipal, possui regularização junto à Anvisa. O município sustenta que a iniciativa segue as normas sanitárias vigentes.

O programa deve contemplar cerca de 200 pacientes de forma gradual, com acompanhamento multidisciplinar envolvendo endocrinologista, nutricionista, psicólogo, profissional de educação física e assistente social.

A prioridade, neste primeiro momento, será para pacientes que aguardam cirurgia bariátrica e pessoas em situação de vulnerabilidade social sem condições de custear o tratamento na rede privada.

Critérios para acesso

Para participar do programa, os pacientes precisam atender a requisitos específicos, como:

Ter 40 anos ou mais (exceto em casos de IMC acima de 40 kg/m²);

Apresentar IMC igual ou superior a 35 kg/m² com pelo menos uma comorbidade;

Ou IMC igual ou superior a 30 kg/m² com duas comorbidades;

Comprovar tentativa prévia de tratamento não farmacológico por pelo menos seis meses.

A prefeitura também informou que o uso do medicamento está condicionado à adoção de hábitos saudáveis e acompanhamento médico contínuo, não sendo permitido para fins estéticos.

Debate sobre acesso e segurança

Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) indicam que cerca de 43% da população de Urupês apresenta algum grau de sobrepeso, cenário que reforça a preocupação local com políticas públicas de enfrentamento à obesidade.

O Ministério da Saúde esclareceu que prefeituras têm autonomia para disponibilizar medicamentos com recursos próprios, desde que respeitem as normas sanitárias.

A tirzepatida é um medicamento injetável desenvolvido inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 e que também demonstrou eficácia na redução de peso ao atuar em hormônios ligados ao controle do apetite e do metabolismo. No entanto, apesar de aprovado pela Anvisa para comercialização, o fármaco ainda não foi incorporado de forma ampla ao Sistema Único de Saúde (SUS) em nível nacional.

O caso reacende o debate sobre acesso a terapias inovadoras, responsabilidade regulatória e os limites legais para manipulação de medicamentos no Brasil — especialmente quando se trata de políticas públicas voltadas a doenças crônicas como a obesidade.

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