Decisão que considerou ilegais as taxas impostas com base em lei de emergência pode beneficiar setores como mel, pescados, uva e café solúvel; indústria pede cautela diante de possível “plano B”.
Economia – A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de considerar ilegais parte das tarifas impostas pelo ex-presidente Donald Trump reacendeu o otimismo em setores estratégicos da economia brasileira. O julgamento, decidido por seis votos a três, derrubou taxas aplicadas com base no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA), legislação de 1977 que permite ao presidente regular transações econômicas após declarar emergência nacional.
Com isso, produtos brasileiros que ainda enfrentavam sobretaxas — como mel, pescados, uva e especialmente o café solúvel — podem ganhar competitividade no mercado norte-americano. Esses itens não haviam sido contemplados nas rodadas anteriores de retirada de tarifas.
No entanto, a decisão não atinge todas as medidas protecionistas. Tarifas sobre aço, alumínio, madeira e veículos permanecem em vigor, pois foram aplicadas com base na chamada Seção 232, dispositivo ligado à segurança nacional.
Setores avaliam impactos
Entidades representativas adotaram postura cautelosa. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a suspensão das tarifas pode impactar cerca de US$ 21,6 bilhões (aproximadamente R$ 111 bilhões) em exportações brasileiras para os Estados Unidos. “Acompanhamos a decisão com atenção e cautela”, afirmou o presidente da entidade, Ricardo Alban.
A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) manifestou-se favoravelmente ao entendimento da Corte americana, destacando que o café solúvel vinha sendo diretamente afetado por uma tarifa de até 50%. Para o café torrado e o grão in natura, que já estavam fora do tarifaço, o cenário permanece estável. Segundo a entidade, um ambiente comercial mais previsível ajuda a reduzir pressões adicionais sobre os preços e traz maior segurança ao comércio internacional.
Já a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) alertou que o Brasil ainda é investigado com base na Seção 301 da legislação comercial americana, o que pode resultar em novas sanções. A entidade também mencionou a possibilidade de uma sobretaxa adicional de 10%, anunciada por Trump.
Trump fala em “plano B”
Em coletiva, Donald Trump afirmou que seu governo possui alternativas para manter a política tarifária, sinalizando que países considerados “não tão bons” com os EUA poderão enfrentar novas cobranças. A declaração reforça a incerteza sobre a estabilidade das relações comerciais bilaterais.
Histórico recente de negociações
Em 2025, após diálogo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, parte das tarifas já havia sido retirada. Produtos como carne bovina, frutas, madeira e fertilizantes saíram da lista de taxação, após negociação diplomática. Uma sobretaxa adicional de 10% também havia sido removida anteriormente.
Na ocasião, Trump declarou que houve “progresso inicial” nas tratativas com o governo brasileiro, abrindo espaço para revisão de medidas comerciais.
O que pode mudar
Especialistas apontam que, caso a decisão da Suprema Corte seja plenamente implementada, setores do agronegócio e da indústria de alimentos podem recuperar margens e ampliar presença no mercado americano. O impacto positivo, porém, dependerá da reação política em Washington e de eventuais novas medidas executivas.
Para o Brasil, o momento representa uma oportunidade estratégica: consolidar ganhos comerciais recentes, diversificar exportações e fortalecer o diálogo diplomático. Mas, diante das incertezas, o cenário ainda exige prudência.