Encontrado dentro do cano da arma, o material genético derrubou a tese de latrocínio e abriu caminho para a prova de DNA no assassinato do pastor Anderson do Carmo.
Brasil – Um detalhe quase invisível foi decisivo para desmontar a versão inicial do assassinato do pastor Anderson do Carmo, morto a tiros em 2019, em Niterói (RJ). Um pelo pubiano encontrado no interior do cano da pistola usada no crime tornou-se uma das provas-chave que mudaram o rumo da investigação e ajudaram a levar à condenação dos envolvidos no caso que culminou na prisão da ex-deputada Flordelis.
O vestígio foi identificado durante a perícia técnica da arma, uma pistola calibre 9 mm apreendida na investigação. Segundo o perito criminal Diego Lameirão, especialista em locais de crime, o material estava preservado o suficiente para análise genética, algo incomum devido às condições internas do cano da arma.
A descoberta teve impacto imediato: indicava que a pistola havia sido guardada junto ao corpo de quem a portava, possivelmente na cintura — circunstância incompatível com a narrativa de que o crime teria sido um assalto seguido de morte, versão sustentada nos primeiros momentos do caso.
Vestígio que derrubou a versão de latrocínio
O pastor Anderson do Carmo foi morto dentro da garagem da residência onde morava com Flordelis, em junho de 2019. A hipótese de latrocínio começou a ruir à medida que a perícia avançava não apenas no local do crime, mas também nos objetos apreendidos.
O pelo encontrado no cano da arma passou a ser um ponto de partida técnico para aprofundar as investigações. Para os peritos, o vestígio reforçava a tese de que o autor dos disparos tinha familiaridade com a arma e que a dinâmica não correspondia a uma ação criminosa aleatória.
DNA apontou o autor dos disparos
Com o foco voltado para o círculo íntimo da vítima, a genética forense tornou-se essencial. O material biológico foi analisado em laboratório e comparado com amostras de pessoas investigadas.
O resultado, somado a imagens de câmeras de segurança e outros elementos probatórios, indicou Flávio dos Santos, filho biológico de Flordelis, como o responsável pelos disparos que mataram o pastor. A conclusão foi determinante para o avanço do processo judicial.
Da cena do crime ao laboratório
O caso ilustra como vestígios mínimos — como fios de cabelo, fragmentos de tecido ou material biológico — podem ser decisivos. Após a coleta criteriosa, os itens passam por processos de purificação e amplificação, até a formação de um perfil genético individual, considerado único.
Banco nacional fortalece investigações
Depois de obtido, o perfil pode ser cruzado com o Banco Nacional de Perfis Genéticos, criado em 2013 e que reúne centenas de milhares de registros. A base é composta, entre outros, por condenados por crimes graves, obrigados por lei a fornecer material genético.
Além de esclarecer crimes específicos, o sistema permite conectar ocorrências distintas a um mesmo autor, sendo uma ferramenta central em investigações complexas. No caso Flordelis, um vestígio quase imperceptível foi suficiente para revelar uma trama que a versão inicial tentou esconder.