Em depoimento à Polícia Federal, ex-controlador do Master afirma que operações não geraram prejuízo, descarta tráfico de influência e atribui liquidação do banco a disputas internas no BC.
Economia – O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, prestou depoimento à Polícia Federal no dia 30 de dezembro no âmbito das investigações que apuram supostas irregularidades financeiras e gestão temerária na instituição. Durante a oitiva, ele negou a prática de crimes, defendeu a legalidade das operações investigadas e classificou a liquidação do banco como resultado de uma “guerra interna” dentro do Banco Central.
Preso preventivamente na Operação Compliance Zero, Vorcaro sustentou que não houve prejuízo ao sistema financeiro nem vantagem indevida em nenhuma das operações questionadas, especialmente naquelas envolvendo o Banco de Brasília (BRB). Segundo ele, as acusações se baseiam em interpretações equivocadas e em pressões externas.
Operações com o BRB e negativa de fraude
Um dos principais pontos do depoimento foi a emissão de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) vinculadas a carteiras da empresa Tirreno. Vorcaro afirmou que a operação não chegou a ser efetivada e que os recursos permaneceram retidos, o que, segundo ele, inviabiliza qualquer caracterização de crime.
“Para existir fraude, alguém precisa ter vantagem e alguém precisa ter prejuízo. Nesse caso, ninguém teve prejuízo e o Banco Master não teve qualquer benefício”, afirmou o banqueiro à PF. Ele reforçou que a transação foi desfeita antes de ser concluída e evitou classificar as carteiras como falsas, alegando que o negócio simplesmente não se concretizou.
Relação com o governador do DF
Vorcaro também confirmou encontros com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), mas negou que as reuniões tivessem como objetivo obter facilitação política para a venda do banco ao BRB. Segundo ele, os contatos foram pontuais e não tiveram relação com as operações investigadas.
O banqueiro citou a própria prisão como argumento para afastar suspeitas de tráfico de influência. “Se eu tivesse o apoio político que dizem que eu tenho, não estaria preso, usando tornozeleira e com a operação negada”, declarou.
Críticas ao Banco Central
Outro ponto central do depoimento foi a crítica à atuação do Banco Central. Vorcaro afirmou que a autarquia acompanhava de perto a situação do Master e que havia divergências internas sobre a melhor solução para o caso. Na sua versão, setores do BC defenderiam uma saída de mercado, enquanto outros teriam optado pela intervenção e liquidação.
Segundo ele, a decisão interrompeu um processo que poderia resultar em um desfecho positivo para o sistema financeiro. “Havia uma solução que beneficiaria todo o sistema, e ela foi interrompida”, disse.
Viagem a Dubai e suspeita de fuga
Questionado sobre a viagem a Dubai, marcada para o dia seguinte à deflagração da operação policial, Vorcaro classificou a suspeita de tentativa de fuga como infundada. Ele afirmou que a viagem era de negócios e que o Banco Central havia sido previamente informado.
O banqueiro disse ainda que não tinha qualquer expectativa de ser preso. “Nunca imaginei, nem nos piores cenários, que isso pudesse acontecer”, afirmou.
Apelo final aos investigadores
Ao encerrar o depoimento, Vorcaro pediu que o caso seja analisado sem a influência da repercussão midiática. Segundo ele, não há vítimas, prejuízos ou fraude bilionária, como apontado nas investigações.
“Peço apenas o benefício da dúvida. Não existe fraude de R$ 12 bilhões e não existe ninguém prejudicado”, concluiu.