Doença inflamatória crônica das vias aéreas não tem cura, mas tem controle ou remissão e é heterogênea. Portaria amplia terapias para casos graves.
Saúde – Um novo protocolo de asma define regras atualizadas para diagnóstico, tratamento e acompanhamento da doença. A mudança mais relevante é a ampliação das opções de tratamento para asma grave no SUS, com novos imunobiológicos e critérios mais detalhados para selecionar pacientes.
O coordenador da Comissão de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Emilio Pizzichini, explica ao g1 que a asma é uma doença comum que, se bem tratada, pode ser controlada. Mas, quando tratada inadequadamente, pode levar à morte.
Ele explicou que a razão da mudança no protocolo foi a incorporação de novos tratamentos para a asma grave.
- Havia o omalizumabe (comercializado como Xolair) e o mepolizumabe (comercializado como Nucala)
- Agora foram incluídos o benralizumabe (comercializado como Fasenra) e o dupilumabe (comercializado como Dupixent) e a indicação de mepolizumabe para crianças.
Segundo Pizzichini, essas mudanças favorecem o tratamento dos indivíduos com asma mais grave, em que o tratamento com as drogas usuais não funciona. Por isso, são necessários tratamentos mais precisos ou personalizados, de acordo com o mecanismo da doença.
Apesar de o novo protocolo ter sido aprovado, os medicamentos ainda não estão disponíveis no SUS e a Comissão de Asma da SBPT defende que a sociedade tenha uma previsão de data para isso.
Existe uma etapa para definir a compra dos medicamentos que não está evoluindo e não há uma data definitiva liberada pelo Ministério da Saúde para quando isso deve ser liberado. A incerteza leva à angústia por parte de pacientes e dos profissionais da saúde”, alerta Pizzichini.
O Ministério da Saúde informou ao g1 que o medicamento benralizumabe será adquirido e distribuído pelos estados, com repasse regular do ministério, conforme pactuado na Comissão Intergestores Tripartite (CIT).
Além disso, “a inclusão do fármaco na Tabela do Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS está em tramitação para viabilizar o início da oferta à população”.
O ministério informou ainda que já começou o processo de licitação para aquisição direta do medicamento dupilumabe, mas não detalhou prazo
O novo protocolo também define que, em casos de asma mais leve ou moderada, o tratamento com corticoide inalatório isolado não é mais suficiente.
O médico acrescenta ainda que os medicamentos atualmente disponíveis isolados causam confusão no paciente, que acaba usando apenas um deles (o broncodilatador) e não usa o anti-inflamatório (corticoide).
A portaria publicada pelo ministério atualiza o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para asma no Sistema Único de Saúde (SUS). A medida substitui a norma anterior, de 2023, e orienta desde a atenção básica até serviços especializados.
O protocolo também atualiza a abordagem diagnóstica e terapêutica conforme a Global Initiative for Asthma (GINA) 2025, reforçando que a asma não deve ser tratada apenas com broncodilatador de alívio.
Asma ainda é problema relevante de saúde pública
A definição de asma não mudou muito, mas o protocolo define que ela é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas. Não tem cura, mas tem controle ou remissão e é heterogênea, tendo diversos subtipos (fenótipos).
Entre os sintomas, que variam ao longo do tempo, estão:
- falta de ar
- chiado
- tosse
- aperto no peito
O Brasil tem uma das maiores prevalências de asma nas Américas, atrás do EUA e Canadá.
Apesar da queda nas internações na última década — de 134.222 em 2013 para 87.707 em 2023 —, a doença ainda representa carga importante para o sistema de saúde.
A mortalidade média é de 1,16 caso por 100 mil habitantes ao ano, o que corresponde a cerca de seis mortes por dia no país. Os dados são do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e se referem ao período de 2014 a 2021.
A maior proporção de óbitos ocorre entre mulheres (64%) e em pessoas com 60 anos ou mais. Já crianças e adolescentes representam 2% dos óbitos.
O diagnóstico da asma não depende de um único exame. Ele é feito a partir da combinação de histórico clínico, exame físico e testes de função pulmonar, como a espirometria – exame simples em que o paciente respira por um tubo conectado a um aparelho e avalia como os pulmões estão funcionando.
O documento enfatiza a necessidade de confirmar o diagnóstico da asma com a espirometria. Isso porque muitas pessoas que têm falta de ar, chiado, tosse ou aperto no peito na verdade não têm asma.
Quando há tratamento sem asma de fato diagnosticada corretamente, o paciente recebe remédios para uma suposta asma e o tratamento não melhora os sintomas. Pizzichini destaca que esses casos (superdiagnóstico) chegam a 30% da população do Canada, por exemplo.
Outro problema é que muitas pessoas têm sintomas leves e não confirmam o diagnóstico (subdiagnóstico) da asma. Com isso, acabam não recebendo o tratamento que melhoraria os sintomas.
Pizzichini enfatiza que a espirometria é fundamental e que o ministério está em processo de aquisição dos espirômetros. Porém, agora é fundamental que os profissionais de saúde sejam treinados para fazerem os testes e já existe convênio para a interpretação centralizada dos testes, segundo o médico.
Entre os sinais que aumentam a probabilidade da doença estão:
- sintomas respiratórios variáveis (tosse, chiado, falta de ar);
- piora à noite ou pela manhã;
- desencadeamento por exercício, infecções ou alérgenos.
Fonte: G1